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FLAUTA DOCE NA SALA DE AULA. Digitação germânica ou barroca?

FLAUTA DOCE NA SALA DE AULA.

Digitação germânica ou barroca?

 

Gilberto André Borges

Mestre em Música

 

 

A pergunta que dá título a esta postagem refere-se a um questionamento que venho me fazendo há muito tempo. Nos últimos dezesseis anos tenho trabalhado como professor de Música efetivo na Rede Municipal de Florianópolis. Sempre trabalhei com os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental. Há dois anos, porém, caí de paraquedas em turmas dos anos iniciais. Coincidentemente (ou não), nos últimos dois anos, esta questão específica relacionada com o ensino de flauta, passou a me incomodar demais. Durante anos, não tinha uma resposta para dar e então seguia as orientações obtidas durante o curso de Licenciatura em Música: as flautas de digitação barroca possuem uma melhor afinação e qualidade sonora equilibrada em toda a extensão do instrumento. Isto me bastava para adotar a flauta de digitação barroca, sem sequer procurar saber mais profundamente se este argumento era verdadeiramente válido. Repetia uma prática que vinha da academia em um contexto completamente diverso, que é o do chão da sala de aula. É claro que os alunos conseguiam aprender a tocar a flauta doce soprano de digitação barroca e isto, de certa forma, também me bastava.

 

Mas a experiência é a flor que brota da labuta pesada sobre a terra estéril da ignorância e eis que a experiência foi amansando o índio velho que escreve este blog. Hoje, depois de tanto bater na porta fechada da nota fa3 da mecânica da digitação barroca com os alunos, me vejo um defensor convicto (até me provem o contrário) da digitação germânica. As razões são várias e, acredito piamente, que os benefícios desta digitação superam de longe a suposta melhor afinação e qualidade sonora da flauta barroca. Digo suposta superioridade da flauta barroca, pois, tudo neste aspecto de qualidade sonora e de afinação de instrumentos musicais é relativo e depende de muitos fatores. Mas para simplificar esta discussão, vale argumentar o que qualquer luthier qualificado endossaria: uma boa flauta germânica vai entregar um resultado sonoro melhor e uma afinação mais precisa do que qualquer flauta barroca de qualidade duvidosa. Há boas flautas germânicas no mercado, inclusive flautas profissionais, confeccionadas em madeiras de excelente qualidade. Movido pela curiosidade, adquiri uma flauta soprano germânica em madeira e me surpreendi com a qualidade do instrumento.

 

Para a criança que está cursando os anos iniciais do Ensino Fundamental, a digitação germânica é aprendida com muito mais naturalidade. Vai-se introduzindo nota a nota sem surpresas na aprendizagem da escala diatônica de do maior. No estudo da digitação barroca, tudo ocorre tranquilamente na aprendizagem da primeira fase da flauta, que corresponde às notas sol3 a re4. Na passagem para a segunda fase do instrumento, que corresponde à aprendizagem das notas do3 a fa3, tudo fica difícil para o aluno, que além de ampliar a necessidade de coordenação motora para as duas mãos, se vê surpreendido com uma digitação em forquilha (ou garfo, para alguns autores) que quebra a lógica anterior na qual para a obtenção de cada nota mais grave no âmbito da escala, um furo a mais se fecha. A digitação germânica não dispensa à coordenação simultânea de ambas as mãos, mas mantém a lógica no desenho da digitação.

 

Para a criança, faz muita diferença este pequeno detalhe no desenho da digitação da escala. O tempo demandado no estudo da mecânica do movimento, pode ser empregado na melhora da performance. Isto também traz um ganho enorme à qualidade da aula e ajuda a manter o interesse da turma no repertório, que pode ser executado com mais facilidade e com mais musicalidade. A extensão máxima do repertório que tenho trabalhado em todos os anos do Ensino Fundamental é de uma oitava e uma sexta, mais especificamente, do do3 ao la4. A extensão média do repertório estudado vai do do3 ao re4. Nesta tessitura, a flauta germânica entrega uma afinação tão precisa quanto a barroca com a mesma qualidade sonora.

 

Um outro argumento a ser considerado na defesa do emprego da digitação germânica na sala de aula da disciplina Música curricular, se refere ao enlace que esta possui em relação à digitação de outros instrumentos da família das madeiras. Depois de dezesseis anos na sala de aula dentro de uma disciplina curricular, me foi natural desejar ter no quadro de instrumentos outros instrumentos de sopro além da flauta. Neste sentido, há alguns anos atrás, resolvi adquirir um saxofone e aprender a tocá-lo minimamente para reproduzir alguns temas de jazz e improvisar. Escolhi o sax tenor, por gostar mais da sonoridade. Pois, bem. A digitação do sax nem de longe se parece com a digitação barroca da flauta doce, mas possui muita similaridade com a digitação germânica. Isto também vale para o sistema Bohëm, utilizado na imensa maioria dos clarinetes. Ora. Nove anos de estudo de instrumento no Ensino Fundamental podem (e, na minha opinião, devem) instrumentalizar o aluno para tocar instrumentos de maior tessitura e aceitação na música popular e erudita. Desta forma, a passagem da flauta doce para outros instrumentos de sopro, sobretudo os da família das madeiras será muito mais natural se, ao longo dos nove anos de ensino fundamental, este aluno aprendeu a tocar a flauta doce germânica. Eu sei que cada instrumento possui a sua digitação e a sua mecânica e que muitos diriam que este argumento não procede, afinal, o saxofone, por exemplo, é um instrumento transpositor e a flauta não. Mas, na minha experiência pessoal como instrumentista é mais fácil aplicar a mesma lógica de digitação em instrumentos diferentes.

 

De longe, nesta postagem, gostaria de enfatizar que a experiência da sala de aula pode suplantar a necessidade de uma literatura de apoio. Pelo contrário, acredito que a teoria e a prática devem caminhar juntas. O que se passa é que gostaria de dividir o resultado destas observações empíricas no espaço deste blog. Deixo a pesquisa, a crítica e, até quem sabe, a refutação completa de todos os argumentos para os leitores, afinal ninguém é dono da verdade, mas a divagação é livre.