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Quantos alunos podemos atender simultâneamente em uma aula de música?

Quantos alunos podemos atender simultâneamente em uma aula de música?

 

Gilberto André Borges

Mestre em Música

 

 

Digam um número de um a trinta e seis. Bem. Partir de um não vale para aulas curriculares de música. Então, sejamos mais justos com a realidade: é preciso um número entre quinze e trinta e seis. Trabalhando com Educação Musical no contexto curricular, já há dezesseis anos em uma rede pública de ensino, nunca me deparei com menos de quinze alunos em uma sala de aula. Mas, este número também não faz justiça à verdade. Na imensa maioria das salas de aula em que entrei, pude contar mais de trinta estudantes por turma.

Governos estaduais e prefeituras passam por um momento de corte em gastos com pessoal oriundos de má gestão dos recursos públicos e da falta de prioridade e compromisso com a qualidade do serviço público oferecido à população. A prioridade de governantes neste país nunca foi a educação pública. Aliado a isto, a crescente demanda por educação infantil fez com que muitos municípios centrassem ainda mais seus investimentos na construção, ampliação e manutenção de creches e núcleos de educação infantil. Não estamos dizendo que isto é errado. A educação infantil é um direito, mas acompanhando este movimento, percebe-se uma redistribuição de recursos e, consequentemente, uma diminuição nos investimentos no ensino fundamental. Uma das faces mais cruéis desse movimento e, do descaramento dos gestores públicos, aparece no crescente aumento de alunos por sala de aula, inclusive com fechamento de escolas e remanejamento de estudantes e professores. O caso de maior repercussão aconteceu recentemente no Estado de São Paulo, na gestão de Geraldo Alckmin e gerou protestos e ocupação de escolas. Mas remanejar estudantes e fechar escolas é prática em outros estados e municípios Brasil afora.

Em áreas urbanas, na rede pública em que trabalho, não raro atendemos turmas com mais de trinta alunos, chegando até trinta e seis estudantes por sala de aula. A própria estrutura físca das salas mal comporta este número, ficando difícil a circulação de alunos e do professor pela sala. Os prejuízos são enormes ao processo pedagógico: o atendimento individualizado ao aluno torna-se inviável; o professor leciona para o aluno médio - alunos acima ou abaixo da média dificilmente obterão o atendimento que necessitam; fica muito mais difícil lidar com a indisciplina, pois mesmo que os alunos conversem sussurradamente, o som gerado é muito alto (e os alunos não conversam sussurradamente na escola, por via de regra, eles gritam em sala de aula); conteúdos que necessitam de uma participação individual do aluno acabam sendo evitados, pois uma exposição individual demandaria mais tempo do que dispõe-se em uma aula de quarenta e cinco minutos; o tempo demandado pelo professor para preencher a burocracia escolar e em tarefas de controle é muito maior; entre outros aspectos que poderiam ser citados.

No Ensino Fundamental de Nove Anos, um professor de música pode atender, como é no meu caso, até nove turmas de anos diferentes. Atendo, atualmente, nove turmas diferentes e mais uma turma extracurricular, totalizando dez turmas diferentes. Isto compreende efetuar dez planejamentos semanais dferentes, pois o aluno do primeiro ano do ensino fundamental é muito diferente do aluno do segundo ano do ensino fundamental, que por sua vez, difere muito do aluno do terceiro ano e assim por diante, até chegarmos ao nono ano. Cada turma é uma turma e o correto em termos pedagógicos é podermos planejar cada aula de cada turma individualmente. Isto é utopia para uma demanda de dez planejamentos semanais.

Pois, bem. Em cada turma, não raro, contamos com alunos portadores de necessidades especiais. Alguns, inclusive, com comprometimento cognitivo. Os casos mais graves, recebem o atendimento individualizado com um professor auxiliar. Outros casos, mais leves ou, não tão leves, mas ainda não diagnosticados, não contam com este recurso. No meu caso, atendo hoje, vários alunos com problemas cognitivos graves ainda sem diagnóstico. Pois bem. Façamos de conta que cada turma possui um aluno com necessidades especiais (o que corresponde ao que tenho atendido nos últimos anos). Neste caso, além dos dez planejamentos gerais necessários por semana para cada turma, este professor deveria efetuar um planejamento à parte para cada aluno portador de necessidades especiais.

É, caros colegas educadores musicais e estudantes de licenciatura em música. A realidade é muito mais dura do que encontramos na literatura linda de nossa área! É claro que é humanamente impossível a um professor, por mais capacitado, experiente e dedicado que possa ser efetuar tantos planejamentos semanais. Imagine que cada turma deveria ter seu próprio repertório, seu nível próprio de desenvolvimento musical e suas particularidades respeitadas, as diferenças entre os alunos compreendidas e trabalhados pelo educador musical. Ah, que utopia! Quisera um dia ter a chance de ser um educador musical de verdade! Poder ter tempo para planejar adequadamente e me preparar para cada aula como deveria ser. Ter às mãos o material necessário que cada aula e cada aluno merece! Por enquanto, ser educador musical de verdade é tentar, em meio a um sistema educacional público caótico e falido, fazer o melhor possível. Tenho certeza que faço! Vejo sorrisos nos lábios de meus alunos e muita música boa acontecendo nas turmas em que leciono. Mas a que preço? O da minha saúde? O de minha sanidade?

Infelizmente, não vejo a área de música, ou mesmo a área de artes, debater este tema. Aceitamos turmas enormes, mesmo que isto signifique não conseguir sequer o silêncio necessário para ouvir uma música, trabalhar técnica vocal sem gritos ou mesmo enxergar as diferenças entre cada estudante. Dez turmas com trinta alunos em média, significa atender a trezentos alunos simultâneamente em um ano. Como visualizar e acompanhar o desenvolvimento musical de cada um? Como compreender o caos de atender alunos de seis a quatorze anos de idade? Parece que só tenho perguntas a fazer neste momento, mas algumas coisas me são claras: a) deveríamos atender a menos turmas e em grupos menores; b) os alunos deveriam poder optar por estudar música, artes visuais, teatro ou dança no ensino fundamental; c) aula de música deveria estar centrada no ensino de instrumentos ou do canto (que é o que sabemos fazer, afinal de contas).