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Estamos formando uma geração à mercê da indústria tecnológica


ESTAMOS FORMANDO UMA GERAÇÃO À MERCÊ DA INDÚSTRIA TECNOLÓGICA

 

Gilberto André Borges

Mestre em Música

 

Embora o título desta postagem pareça sensacionalista, ele reflete uma constatação real. Apesar de os jovens apresentarem uma facilidade para assimilar novas tecnologias, é preciso lembrar que a conquista de soberania nacional nesta área está diretamente relacionada com a realização de pesados investimentos estatais em ciência e tecnologia e também em educação básica. Trata-se de algo que eu já havia estudado há muitos anos durante a minha pesquisa de mestrado. Autores como Hernández (2006), Aplle (2005), Brant (2008) e Castells (1996, 2003) apontam, mesmo que cada autor destes parta do ponto de vista de uma área diferente dentro das ciências sociais, a necessidade de repensarmos o papel da educação frente às mudanças recentes na vida em sociedade. Estas mudanças possuem seu eixo no acelerado desenvolvimento tecnológico ocorrido desde a segunda metade do século XX. Estas transformações, como bem aponta Castells (1996), são totalizantes, englobando todos os aspectos da vida em sociedade.

 

O que talvez tenha passado com pouca ênfase para mim na época do mestrado é o quanto o desenvolvimento tecnológico poderia ser usado para subjugar populações inteiras. Isto pode ser compreensível considerando-se que ao longo da última década descobrimos que a tecnologia avançou significativamente em muitos campos sobre os quais, à época, não havia muita informação disponível, como por exemplo, na área militar. Toda a discussão em torno das chamadas "armas com autonomia letal" era assunto para especialistas, apenas. Também me parece relevante citar que, há dez anos atrás, o país vivia tempos de otimismo. Acreditávamos que o Brasil, em especial, comporia uma vanguarda ética e que rumava para o grupo de sociedades desenvolvidas onde o combate às desigualdades sociais e a inclusão social das minorias menos favorecidas seria um fato consequente e inevitável. Atravessávamos tempos de prosperidade econômica e de inclusão social. Este cenário favorecia a crença de que o acesso à educação básica para todos, condições de saúde pública, alimentação e ao consumo nos tornaria uma nação onde o desenvolvimento tecnológico estaria ao alcance das novas gerações de brasileiros. Investimentos estatais em ciência e tecnologia, criação de novas universidades, escolas técnicas, financiamento estudantil para graduação, bolsas de pesquisa no Brasil e no exterior e incentivos para programas de mestrado e doutorado nos davam a certeza de que o Brasil do futuro jamais pegaria o bonde de volta ao passado de submissão ao capital internacional, fome e exclusão social.

 

É triste constatar o quanto estávamos enganados! O Golpe de Estado de 2016 alterou profundamente a percepção que tínhamos acerca do país. Percebemos que a Ditadura Militar que tanto combatemos no período 1964-1986 havia deixado sequelas muito graves que a Nova República e a Constituição Cidadã de 1988 não conseguiram curar completamente. Os acordos políticos que costuraram os governos de Luís Inácio Lula da Silva e de Dilma Rouseff não resistiram ao pensamento retrógrado das elites tradicionais brasileiras, às quais lançando mão do seu poderio financeiro e midiático estão conseguindo impor, por meio do golpe, uma agenda política de retirada de direitos e de conquistas sociais. A educação sempre esteve na pauta primeira de todos os golpes de Estado do período republicano no Brasil. Que nos diga Getúlio Vargas e a Escola Nova; a Ditadura de 64 e o desmonte da educação pública brasileira; que nos digam os golpistas de 2016 que em poucos meses de governo, já demonstram a pretensão de destruir tudo o que foi conquistado a duras lutas, desde 1986.

 

Como professor da Educação Básica atuando em escola pública, percebo a cada dia o quanto nos distanciamos da possibilidade de formarmos cidadãos livres, exceto pelo nosso exemplo de lutas. A categoria do magistério, no Brasil, sempre apresentou uma expressiva participação nas lutas sociais que desembocaram no breve período democrático dos últimos anos. Mais especificamente, entre 1986 e 2016. Mesmo durante este período os professores continuaram suas lutas por melhores condições de trabalho e pelo cumprimento por parte do Estado do seu dever constitucional referente à educação. Nos últimos meses, após a deflagração do Golpe de Estado de 2016, a categoria do magistério tem integrado as lutas sociais por democracia e manutenção dos direitos sociais de forma ativa, sendo, inclusive, uma das categorias mais atacadas em seus direitos pela ditadura civil instaurada pelo presidente ilegítimo Michel Temer. A partir do exemplo presidencial, governadores e prefeitos Brasil afora partiram para ataques à área de educação alegando, mentirosamente, altos custos e o eterno discurso da falta de eficiência das redes públicas de ensino.

 

O próprio Ministério da Educação omitiu, recentemente dados sobre o ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio. Nos dados divulgados, o desempenho dos CEFET – Centros Federais de Educação Tecnológica não foi incluído, o que deu margem para a mídia golpista divulgar que as escolas privadas haviam obtido melhor desempenho. O discurso mentiroso sobre a educação pública sai do Palácio do Planalto e chega até a mais humilde prefeitura país afora. O interesse envolvido nisso é claro: o desmonte do serviço público. O ideário neoliberal de estado mínimo levado para as últimas consequências transferiria para a população a obrigação de pagar por serviços privados em áreas essenciais como educação, saúde, previdência, infraestrutura e segurança. O Estado, neste cenário, seria apenas um coletor de impostos e um distribuidor de benesses para uma pequena minoria privilegiada. A esmagadora maioria dos brasileiros estaria alijada de qualquer benefício no tocante ao pacto federativo. O papel dos pobres neste país seria apenas o de serviçais de uma elite burra e arcaica! A presença do Estado nas periferias pobres se resumiria à repressão policial: estado de sítio!

 

Este projeto de concentração de renda e poder no país está em curso em velocidade plena. Todas as iniciativas do governo ilegítimo de Michel Temer giram em torno da implementação deste processo de desmonte das políticas públicas em todas as áreas: a implementação de um Ensino Médio sem debate com a sociedade, feito por medida provisória na primeira semana após o Golpe de Estado de 2016 (típico de uma ditadura!); o fim dos direitos trabalhistas cristalizados na CLT – Consolidação das Leis do Trabalho; a reforma da previdência social, ampliando o tempo de contribuição para aposentadoria para o limite da expectativa de vida do brasileiros; a aprovação da terceirização da atividade fim, o golpe de misericórdia no serviço público; entre outros inúmeros absurdos que compõem a agenda política do golpe.

 

Frente a tudo isso, me deparo com mais um dia de trabalho em uma escola de Ensino Fundamental, onde a nossa percepção nos leva a constatação de que tudo naquele espaço foi pensado para não funcionar. Onde tudo foi feito para prejudicar o acesso à educação pelos alunos. Vejam bem que não estou me referindo à direção da escola. Trata-se de uma escola de Ensino Fundamental da Rede pública municipal, que está em reforma há mais de um ano. A direção da escola procura atuar no impossível, mas a responsabilidade pelo caos é do executivo municipal. Salas de aula improvisadas, sem ventiladores, sem biblioteca (apenas algumas obras disponíveis) e há mais de um ano sem computadores! Professores que vieram de mais de trinta dias de greve por conta de uma tentativa de retirada de direitos por parte do executivo municipal, que foi vencida na luta! Professores, estes, que tiveram salários atrasados, receberam férias e 13º salário com atraso. Este é o cenário hoje. Imaginem daqui a 20 anos quando vencer (se não for prorrogado) o prazo de congelamento em investimentos da PEC 51.

 

Sim. Estamos formando uma geração de escravos digitais. Meros consumidores de tecnologia criada por empresas estrangeiras. Mal damos conta da alfabetização em Língua Portuguesa e Matemática. Formamos analfabetos funcionais não porque os professores não sabem ensinar, mas sim porque atuam em condições péssimas de trabalho. Sou professor de música que leciona há mais de um ano em um canteiro de obras. Em dezesseis anos atuando na Rede Pública Municipal, nunca tive uma sala de música. Em muitas escolas, sequer tive instrumentos e materiais para lecionar. Ora. Para que nossos alunos possam minimamente estar integrados nesta sociedade baseada em tecnologia que vivemos, deveria eu estar ensinando música computacional, além da música tradicional e da musicalização. Principalmente para os anos finais do Ensino Fundamental. Estes alunos já deveriam estar tendo um contato com a desmistificação da tecnologia, com projetos colaborativos de código aberto, com o protagonismo tecnológico. Tudo isto para não serem escravos em um futuro próximo. Nem consumidores: escravos a mercê dos interesses corporativos da indústria tecnológica. Isto não faz referência apenas a chamada área de informática. Tecnologia abrange todas as áreas do conhecimento humano, pois tecnologia é o próprio conhecimento acumulado em ação.

 

Imaginem a biotecnologia com a qual esta geração de jovens irá se confrontar no futuro. Imaginem o desafio que será para estes jovens oriundos de escola pública integrar grupos de trabalho em alta tecnologia. Aplle (2005) fala com muita propriedade que, toda a vez que o Estado deixa de agir, ele está tomando partido pelos mais favorecidos. É simples: o estudante pobre que não tem computador para estudar em casa vai concorrer em pé de desigualdade com o estudante rico que tem computador, celular de última geração, instrumentos musicais, acesso ao consumo de bens culturais, etc. O papel do Estado, para equilibrar essa desigualdade seria o de proporcionar o acesso às mesmas condições de aprendizado e desenvolvimento pessoal na escola. Países onde a educação é tratada com seriedade fazem isso. Investem em igualdade de condições na escola pública. Enquanto isso, numa certa república das bananas ao sul do Equador, professores são tratados como problema; investimento em escola é considerado gasto; o desmonte da educação pública caminha a passos largos. Saio do pátio da escola com a garganta apertada. O meu grito sufocado é o grito de milhões de professores no Brasil. Um grito de desespero e de inconformação. A nossa luta é diária. Haveremos de reconquistar a democracia perdida neste país!

 

Para saber mais:

 

APPLE, Michael W. Para além da lógica do mercado. Compreendendo e opondo-se ao neoliberalismo. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

 

BRANT, João. O lugar da educação no confronto entre colaboração e competição. In: PRETTO, Nelson De Luca; SILVEIRA, Sérgio Amadeu da (org.). Além das Redes de Colaboração. Internet,
diversidade cultural e tecnologias do poder. Salvador: EDUFBA, 2008.

 

CASTELLS, Manuel. Fluxos, Redes e Identidades: Uma Teoria Crítica da Sociedade Informacional. In: CASTELLS, Manuel; FLECHA, Ramón; FREIRE, Paulo; GIROUX, Henry; MACEDO, Donaldo; WILLIS, Paul. Novas Perspectivas Críticas em Educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

 

_______. A Galáxia da Internet. Reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

 

HERNÁNDEZ, Fernando. Por que dizemos que somos a favor da educação se optamos por um caminho que deseduca e exclui? In: HERNÁNDEZ, Fernando; SANCHO, Juana María (org.). Tecnologias para transformar a educação. Porto Alegre: Artmed, 2006.